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    Um Homem de Sorte

    2012-5-3


    Um Homem de Sorte tem um importante chamariz como comédia romântica, ou seja, filme para ver bem acompanhado para a turma adolescente. Zac Efron foi o ídolo das meninas há alguns anos como Troy Bolton, a estrela dos três filmes da série High School Musical, que fez uma baita sucesso ao lado de sua turma entre 2006 e 2008. Pois é, Zac Efron cresceu, já não pode mais fazer o papel do adolescente e enfrenta o grande dilema por qual passam os jovens atores que ficam famosos com um certo estima e precisam se reinventar.

    Por coincidência, assisti esses dias a Noite de Ano Novo, já em DVD. O filme mostra um mosaico de personagens na passagem do ano em Nova York e um dos atores é justamente Zac Efron. Está mais descontraído, fazendo o papel mais divertido e solto. Prefiro assim, do que na pele do sofredor fuzileiro naval de Um Homem de Sorte.

    Neste filme, o jovem soldado passa pela terrível experiência da guerra e da morte, e quando volta precisa encontrar novamente uma razão para viver. Sua intuição diz para ir atrás da mulher que está na foto que encontrou nos escombros de uma ataque. Acredita ter tido a sorte de se salvar por causa dela. Contando essa mesma pequena sinopse à minha filha de 10 anos, que acompanhou com todas as suas forças a série High School Musical na época, ela já matou todo o desfecho. E você também já pode imaginar o que vai acontecer. Mas acho que isso é o de menos – tem muita comédia americana previsível por aí e esse tem sido o padrão dos últimos tempos. Até por isso que quando assisto à produções europeias criativas, recomendo no Cine Garimpo na hora. Precisamos aumentar o repertório...

    Não é o romance, nem a previsibilidade que incomodam mais – parece que isso faz parte do gênero. O que me deixa sem paciência neste tipo de filme é a falta de graciosidade. Graça de fazer rir não tem mesmo – e nem pretende. Mas também não tem diálogos interessantes, quem dirá inteligentes. Zac faz um sujeito correto, mas sério demaisda conta. Está travado, duro, como se estivesse com medo de se soltar e encarar a nova fase. Como falei, prefiro quando encarna um personagem mais leve. Sua parceira Beth (Taylor Schilling), também não convence, é dramática demais – no sentido mais melado da palavra. Quem se salva é Blythe Danner, mãe de Beth, que é mais solta e natural.

    Bingo, achei a palavra que me faltava quando comecei a escrever: natural. Falta naturalidade e desenvoltura, embora imagine que vá agradar ao público adolescente, às meninas que vão suspirar com o romance. Aliás, é para elas que o filme foi feito – não há dúvida.

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    Vivo Open Air

    2012-4-20

    Praticamente toda semana há algum festival ou mostra de cinema acontecendo em São Paulo e em todo o Brasil. Tem para todos os gostos: de animação a documentários, de audiovisual a experimentação, sobre direitos humanos, diversidade sexual, cultura judaica, cinema silencioso, musical, independente, infantil. Fora as mostras de cinema internacionais. Mesmo assim, ainda há espaço de sobra para iniciativas inteligentes, que integram os consumidores de cultura à cidade. Literalmente. Quando fui assistir à abertura do 10º Vivo Open Air no Jockey Club de São Paulo, tive certeza disso.

    Cinema a céu aberto é algo praticamente impensável em uma cidade que se esconde e se fecha cada vez mais. Cadê o cinema de rua? Quando assisti ao filme projetado na tela gigante de 325 metros quadrados, com o panorama dos prédios da zona sul da cidade iluminados ao fundo, me dei conta do potencial que tem São Paulo de fazer as pessoas se integrarem ao seu perfil. Complicado e violento, é verdade. Mas também dinâmico, possível e principalmente muito agradável.

    O Open Air, que já passou pelo Rio, Brasília, Lisboa, Madrid e Santiago nos últimos 10 anos, abriu para o público dia 17 de abril e vai até dia 06 de maio, com uma programação eclética e de qualidade. (Para quem não sabe, depois do cinema tem também festival de música, com uma banda diferente por dia.)

    A escolha dos filmes vai desde lançamentos como Sete Dias com Marilyn e Carnagem, a clássicos imperdíveis como Psicose e O Poderoso Chefão, e documentários incríveis como PinaOceanos e Senna. Sem falar nos infantis como Ponyo e As Aventuras de Tintim, caso queira fazer programa com as crianças. De acordo com seu gênero preferido e seu estado de espírito, você vai encontrar uma opção que agrade. O importante é não deixar passar, porque a experiência é muito bacana e aguça a sensação de pertencimento. Sensação boa, que faz a gente circular ao ar livre e dá oportunidade desta cidade tão complexa mostrar a sua cara.

    Clique aqui e acompanhe a programação completa no Cine Garimpo.  

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    Xingu

    2012-4-5


    Em 1943, cansados da vida tradicional e previsível da elite paulistana e cercados por burocracia no centro de São Paulo, os irmãos Villas Bôas se passam por caboclos analfabetos – requisito básico para integrar a Expedição Roncador-Xingu do governo federal – e seguem para desbravar o oeste ainda selvagem do Brasil.

    De aventureiros a indianistas, de curiosos a corajosos ambientalistas, Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas conseguiram o inimaginável: fechar o cerco, proteger os índios com a criação do Parque Nacional do Xingu em 1961, no extremo nordeste do Mato Grosso, para preservar e proteger a cultura, a tradição, a fauna e aflorabrasileiras para as gerações futuras. O que é considerada a fronteira do parque, também chamada de "o abraço da morte". Preservar significou, neste caso, isolar. Irônico, esse modelo. Mas foi uma medida de pura sobrevivência.



    Xingu, o novo filme de Cao Hamburger (também em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) conta, de forma grandiosa, cuidadosa e emocionante, essa história quase inacreditável de dedicação e luta pelo ideal. Tive a impressão, fascinada, de um Xingu-filme enraizado, feito com consciência, responsabilidade e extrema beleza, claro. "O projeto demorou cinco anos para ser finalizado, devido às dificuldades de pesquisa, informação, ambientação na natureza local implacável", relata o diretor na entrevista coletiva, que contou com a produção sempre humanista de Fernando Meirelles.

    Mas para ter esse viés humano forte e incontestável, é preciso soar verdadeiro. A composição e preparação do elenco são fundamentais, que além de atores famosos e experientes como Caio Blat (também em As Melhores Coisas do Mundo, Bróder, Batismo de Sangue, Carandiru, O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias) , João Miguel e Felipe Camargo (os três irmãos), conta com a participação dos índios das tribos locais.

    "Quando filmamos com amadores, o desafio para o profissional é bem maior", confessa Felipe Camargo, o Orlando. "A história e a tradição do índio se perpetuam através da encenação, da dança, da música. Pensando bem, eles já sabem representar naturalmente, eles é que estão sempre prontos para entrar em cena". E é verdade, da parte deles, texto é o que tem de menos. Até nisso houve equilíbrio de saberes. O filme tem uma sintonia impressionante entre os atores e o profissional, entre a produção e o meio ambiente. O profissional é que tem que se descontruir, entrar no ambiente estrangeiro. De fato, o que Cao faz é nos colocar dentro das tribos, obrigando-nos a trabalhar um olhar humilde, reverencial e respeitoso, o mesmo que os irmãos tiveram ao entrar onde não foram chamados, ao integrar-se sem interferir, ao conviver.



    "Quando o Brasil em geral fica difícil de aturar, eu fecho os olhos um instante e me refugio no pedaço do Brasil onde corre o Tuatuari, [...] um humilde formador do poderoso Xingu, onde os irmãos Villas Bôas estabeleceram a sede do Parque Indígena do Xingu, onde nossos índios passaram a receber o único tratamento VIP que jamais tiveram ou terão", desabafa o jornalista Antonio Callado, na apresentação do livro A Marcha para o Oeste – A Epopeia da Expedição Roncador - Xingu, de Orlando e Cláudio Villas Bôas (Cia das Letras), uma das referências do filme.

    Além de difícil de aturar, o Brasil das madeireiras, das estradas, das usinas hidrelétricas, das pastagens, da criação de gado está difícil de brecar. Agora, mais do que nunca, é preciso abrir bem os olhos e interpretar Xingu além de suas fronteiras.

    Direção: Cao Hamburger
    Roteiro: Cao Hamburger, Helena Soarez, Anna Muylaert
    Elenco: João Miguel, Caio Blat, Felipe Camargo, Maria Flor, Maiarim Kaiabi, Awakari Tumã Kaiabi, Adana Kambeba, Tapaié Waurá, Totomai Yawalapiti, Augusto Madeira, Fabio Lago
    Brasil, 2012 (103 min)

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    Coletiva com Heitor Dhalia – 12 Horas

    2012-3-22

    Há dois processos criativos bem distintos. Um deles é aquele em que o diretor tem controle da produção e da escolha de elenco, em que consegue ensaiar a cena com os atores, em que o sistema financeiro é importante sim – é ele que faz o filme acontecer, afinal de contas – mas não dita as regras, em que o cinema não é uma bolsa de valores, em que a autoria é a alma da história que se pretende contar.

    O outro é o sistema criativo pautado pelo financeiro, pelo risco calculado pelo produtor que investe e quer resultado, marketing, projeção, negócio, em que o diretor é mais uma peça do quebra-cabeça e onde o filmmaker é produtor, o real dono do projeto.

    Descrevendo aos jornalistas esse panorama, o diretor brasileiro Heitor Dhalia (foto ao lado) concedeu uma entrevista à imprensa esta semana no Iguatemi, aproveitando o lançamento de seu novo filme, o suspense hollywoodiano "12 Horas". Com estreia marcada para 6 de abril, conta com a atriz Amanda Seyfried, também de Mamma Mia, A Garota da Capa Vermelha, Cartas para Julieta.

    Filmado inteiramente nos Estados Unidos, com equipe local e todo o aparato do cinema americano, Dhalia contou como teve de se adaptar à linha de produção da indústria cinematográfica americana, ao nível extremamente alto de preparo de cada um dos profissionais envolvidos. "Em Hollywood, em grande parte dos casos, quem manda é o produtor, que precisa garantir que seu investimento atinja os resultados pretendidos", conta ele. "Eu tive a oportunidade de ter essa experiência, mas o roteiro já estava pronto e não pude fazer alterações, a atriz já tinha sido escolhida, a equipe já estava escalada e eu tinha apenas que dirigir". Como se fosse pouca coisa.



    De qualquer forma, vale dizer que "12 Horas" é um filme comercial de suspense, voltado para um nicho de público que gosta dessas produções de carta marcada e roteio previsível. Explico: a personagem de Amanda Seyfried é sequestrada, mas ninguém acredita nela, nem mesmo quando sua irmã desaparece. Assim, ela resolve fazer justiça pelas próprias mãos e o suspense da menina-detetive está armado.

    Heitor Dhalia deu a entender que valeu o desafio, já que não deve ter sido tão simples assim se render aos mandos de outros senhores, ele que estava acostumado com o envolvimento total com a obra, desde o roteiro, locação, escolha dos personagens e equipe, ensaios e tudo mais. De uma relação intimista com a sua obra, como no esquisito, porém interessante, O Cheiro do Ralo (2006), e no ótimo e sensível À Deriva (2009), Dhalia navegou por umprocesso realmente industrial.

    "Se eu gosto do produto final? É um filme de gênero, voltado para o resultado, para o consumo. Mas todos nós somos parte desse mercado porque compramos, de uma forma ou de outra, o cinema de Hollywood", conclui Dhalia, saindo pela tangente. São aquelas experiências na vida que valem, mas que não tocam na essência, neste caso na essência do cinema autoral. Prova disso talvez seja o que vem pela frente. Dhalia prepara Serra Pelada, um filme sobre o maior garimpo a céu aberto do mundo, nos anos 1970, com Wagner Moura no elenco. Boa pedida, voltar às origens.

    Assista ao trailer de "12 Horas":

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    W.E. – O Romance do Século

    2012-3-8


    Em W.E. – O Romance do Século, Madonna fez dois filmes em um. O primeiro, de época. Retoma o que vimos em O Discurso do Rei no ano passado, quando George VI se torna o rei da Inglaterra, em 1936. Sobe ao trono após seu irmão Edward VIII abdicar para se casar com uma mulher americana, divorciada pela segunda vez. Do discurso, já temos registrado no filme, premiado com Colin Firth.

    O que Madonna fez agora foi resgatar o romance de Edward com a americana Wallis Simpson, mulher à frente do seu tempo em trajes, costumes, interesses, ousadia. Madonna conta como tudo isso aconteceu em plena década de 1930.

    O segundo filme é aquele que destoa de todo o resto e que causa um certo estranhamento. Já não tem a beleza da reconstituição do passado. Conta a história paralela de Wally Winthrop, que se passa nos dias de hoje. Uma mulher não mais à frente do seu tempo, mas submissa ao marido, obediente, sonhadora, romântica, ingênua, inexpressiva – um pouco tola, inclusive – obcecada com a história acima, a de Edward e Wallis. Intercalando as duas narrativas, Madonna disseca a vida, a postura de duas mulheres opostas.

    No entanto, Wally Winthrop (AbbieCornish) não tem, nem de longe, a mesma força de Wallis Simpson (Andrea Riseborough). Nem a atriz, nem a personagem, nem a história. Toda a força e ousadia de câmera e enquadramentos que a diretora imprime no passado ficam perdidas na história do presente. Eu diria até inverossímil, improvável, com um certo ar de "conto de fadas às avessas", com um príncipe encantado russo disfarçado de vigia.

    Mais parece uma sobreposição, deixando a sensação de que os roteiros não se entrelaçam com perfeição. Algo não combina – seria o fato de Madonna se projetar nessa faceta romântica e infantilizada da boa moça do presente?

    O que é incontestável em W.E. – O Romance do Século é o rigor estético da produção. Madonna caprichou e nem tudo é desconforto. Gosto do olhar sob o figurino, a reconstrução de época e o roteiro que cobrem a vida de Wallis e Edward. Eu dispensaria por completo esse conto do presente – teria sido melhor se o filme se concentrasse somente nesse momento histórico, que de fato marcou a história da realeza, quebrou paradigmas e mostrou que o amor realmente faz coisas inacreditáveis (afinal, abdicar do trono inglês não é pouca coisa).

    Apesar das ressalvas, W.E. conta uma ótima história e a gente sabe que, embora a realeza já não seja mais a mesma, continua dando o que falar.

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    A Invenção de Hugo Cabret

    2012-2-23

    "A história que estou prestes a contar se passa em 1931, sob os telhados de Paris. Aqui, você conhecerá um menino chamado Hugo Cabret, que, certa vez, muito tempo atrás, descobriu um misterioso desenho que mudou sua vida para sempre."

    Narrador

    Assim começa o livro "A Invenção de Hugo Cabret", de Brian Selznick, que deu origem ao filme homônimo. O narrador diz ainda mais. Pede que o leitor se imagine em uma sala escura, como no início de um filme, que acompanhe o zoom até o saguão da estação de trem lotada, onde verá um menino no meio da multidão. É preciso segui-lo, já que o garoto tem muitos segredos na cabeça e uma história para contar.

    E é assim mesmo que acontece, como se o leitor-espectador estivesse vendo e fazendo um filme ao mesmo tempo.O diretor Martin Scorsese (também em "Ilha do Medo") seguiu à risca as instruções iniciais do autor, quando adaptou o livro para o cinema. Mais do que uma adorável aventura pela Paris dos anos 30, pelo maquinário fascinante dos relógios da estação de trem e pelos sonhos e aventuras da adolescência, "A Invenção de Hugo Cabret" é uma homenagem ao cinema e suas origens.



    Indicado ao Oscar em 11 categorias, é um forte concorrente ao prêmio deste domingo, 26 de fevereiro. Hugo (Asa Butterfield, também em "O Menino do Pijama Listrado") é filho de um relojoeiro, que além de consertar relógios, é fanático por autômatos. Encontra um deles num sótão de um museu e dedica-se a consertá-lo. Mas morre repentinamente e Hugo teima em continuar a tarefa começada, na esperança de que o robô traga uma mensagem do pai (Jude Law, também em "Contágio", "Sherlock Holmes", "Closer – Perto Demais").

    Vagando pela estação de trem, onde vive ajustando e dando corda nos relógios, as anotações sobre o autômato vão parar nas mãos do entristecido e emburrado dono da loja de brinquedos (Ben Kingsley, também em "Gandhi", "A Lista de Schindler", "Ilha do Medo", "Fatal"), que não tem outra escapatória senão se defrontar com o passado e enfrentar a curiosidade do garoto e de sua sobrinha Isabelle (Chloë Grace Moretz). Hugo vive entre a precisão dos relógios, a necessidade de não deixar escapar os minutos e segundos, e a dos sonhos, presentes no enigma e no mistério do autômato. Assim é o cinema, também oscilando entre realidade e ficção, observação e atitude.

    Sem que a gente se dê conta, o filme conta uma história que ficou distante para a maioria de nós e que pouca gente sabe. Portanto, tem um valor didático enorme ao resgatar o início do cinema realista com os irmãos Lumière e a trajetória do ilusionista George Méliès, com seu cinema "fábrica de sonhos" do final do século XIX, mostrando a produção de cenários e ilusões em alguns de seus mais de 500 filmes.

    Muita gente anda perguntando se é indicado para crianças – como diz a classificação oficial do filme. Eu diria que não é um contexto infantil, de simples aventura. É mais sutil e contextualizado do que isso. Crianças maiores, a partir dos 10 anos, aproveitam mais se souberem um pouco desse contexto do cinema, se contarmos a eles que o personagem de Ben Kingsley realmente existiu e que há mais de 100 anos o cinema já se apresentava ao público como criação, imaginação, recurso para deixar a realidade de lado e entrar no mundo dos sonhos. Apesar da pequena diferença no final do filme e do livro, a homenagem ao poder da boa narrativa é uma só. 

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    A Dama de Ferro

    2012-2-9

    "Atenção aos pensamentos, porque eles se transformam em palavras. Atenção às palavras, porque elas se transformam em ações. Atenção às ações, que se tornam hábitos. Atenção aos hábitos, porque eles compõem seu caráter. Atenção ao seu caráter, que ele se torna seu destino. Nós nos tornamos aquilo que pensamos."

    Margareth Thatcher



    Lembro-me bem da imagem de televisão de Margareth Thatcher nos discursos mundo afora. Eram marcantes, em uma época em que as mulheres não eram muitas no poder. A postura irredutível, firme, absolutamente dona de si é o que me vem na memória quando penso na única primeira ministra britânica da história, no cargo de 1979 a 1990.

    Quando me dei conta disso, me arrependi de não ter revisto alguns de seus discursos antes de assistir ao filme. Com a ferramenta do YouTube, isso hoje fica fácil. Uma simples busca com o nome dela já disponibiliza diversos vídeos da Dama de Ferro discursando e imprimindo seu incomparável jeito de ser e fazer política. Vale a pena. Assim você tem a verdadeira Thatcher fresca na cabeça para encarar Meryl Streep, em uma caracterização impecável. Não tenho ressalvas à sua interpretação.

    Indicada pela 17ª vez ao Oscar de melhor atriz, Meryl Streep está a própria Thatcher, parecendo intocável na sua carcaça de raciocínio lógico e irônico, determinação e convicção, capaz de colecionar tantos inimigos quanto admiradores políticos.

    Quando um diretor se depara com uma personalidade controversa, como a de Thatcher, fica difícil encontrar um viés apropriado para contar, em apenas duas horas, o que foi sua presença e seu legado – ainda mais escolhendo uma americana para representar uma inglesa. Em se tratando da ex-primeira-ministra, como retratar sua postura diante da crise econômica, do aumento do desemprego, da pressão dos sindicatos e do partido conservador, da Guerra das Malvinas? O que a diretora Phyllida Lloyd, também de Mamma Mia, fez em A Dama de Ferro foi humanizar uma personagem dura, contando sua história política a partir das lembranças de uma frágil e solitária senhora, que sente saudades dos filhos pequenos e do marido companheiro, que sofre de demência, que diz não precisar de ajuda, que teima em não ir ao médico, que ainda é apegada aos pertences comuns que trazem registradas as histórias de uma vida.

    Para quem acha que ainda faltou contar muita coisa, talvez isso seja um consolo - personagens densos e complexos como ela ainda podem render ótimas histórias no futuro. A Dama de Ferro é um importante e bem feito registro, não só de um personagem histórico, mas de uma maneira de liderar e de viver a arte da política.  Assista ao trailer abaixo:

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    Sherlock Holmes: o jogo de sombras

    2012-1-12



    Adaptar um personagem clássico como Sherlock Holmes tem mais perigos do que garantias. Quem o fizesse corria o risco de criar uma figura desinteressante para os dias de hoje, principalmente em se tratando de filmes de suspense. Já digo de cara que ainda não vi o primeiro Sherlock Holmes (2009) e que isso não fez a menor diferença.

    Holmes é o famoso detetive que vive no fim do século XIX em Londres, é um sujeitos excêntrico que tem a missão de descobrir as tramóias dos malvados dispostos a prejudicar a paz da capital inglesa – e, neste caso, da Europa. Na pele de Robert Downey Jr. (também em O Solista), Holmes é um solteirão convicto, adequado aos tempos modernos, não sem exercitar seu raciocínio lógico, suas deduções baseadas em evidências e suposições certeiras.

    Com as confusões, o que temos é um filme de muita ação, intriga e jogo de interesses, sempre com ajuda de seu fiel amigo, o médico John Watson (Jude Law, também em Contágio, Closer - Perto Demais, que vai se casar. Aliás, vale dizer que o elenco feminino é marcante e decisivo: assim como no primeiro da série, tem Rachel McAdams (também em Uma Manhã Gloriosa e Meia-Noite em Paris) e Kelly Reilly (também em Albergue Espanhol e Bonecas Russas), e agora conta também com Noomi Rapace (também em Os Homens que não Amavam as Mulheres).



    Se você for esperando um filme de ação, daqueles em que as manobras são improváveis, mas que estão previstas, em que a produção é bacana e bem cuidada e em que pitadas de humor e descontração ajudam a dupla a resolver a situação, vai aproveitar.

    O trailer já dá uma boa mostra do que pretende o Sherlock Holmes contemporâneo. Da minha parte, confesso que o exercício de assistir a tantos filmes com propostas e linguagens diferentes me fez assimilar que algumas coisas são incomparáveis. Essa linha do Sherlock Holmes é sinônimo de superprodução, ação a todo momento, feito sob medida para quem adora aventuras. Se você é um deles, vai curtir. Eu confesso, aqui muito entre nós, que gostei. Achei divertido. Precisa mais? Ou melhor, era para ser mais do que isso? Neste caso, acho que não.

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